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14.10.15

Opinião: Católicos e evangélicos na novela do SBT: Cúmplices ou rivais?


Trago alguns resultados da análise da abordagem de Cúmplices de um Resgate em relação à (in)tolerância religiosa – trabalho que realizei junto com a amiga e professora Hideide Torres para um evento acadêmico [1]. A trama traz o conflito entre católicos e evangélicos a partir do núcleo de Padre Lutero e Pastor Augusto, que concorrem pela influência religiosa no Vilarejo dos Sonhos. 

Desde o início fiquei curioso para ver como Íris Abravanel iria retratar o tema; evangélica, ela já trouxera a temática da religiosidade em outras novelas de sua autoria por meio de personagens evangélicas (Meg, em Revelação), judias (Davi, em Carrossel) e católicas (Rita, em Vende-se um Véu de Noiva), mas não de modo tão evidente quanto agora. Preocupando-se com uma “mensagem” a ser transmitida pela novela, afirmou, quando perguntada sobre Cúmplices: “Vamos pelo lado cômico, mas pregando que o amor ao próximo tem de prevalecer. Independentemente da crença, o respeito precisa ser maior” [2]. Antes disso, vale ressaltar, a religiosidade das novelas do SBT ficava praticamente restrita a manifestações católicas, por meio de padres com várias funções nas tramas (humor, drama) ou através das mocinhas sofredoras que rezavam para a Virgenzinha, Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina.

Para quem não acompanha a novela (tá perdendo!), o núcleo religioso é formado por Nina (evangélica), Fiorina (católica), Nair (católica), Padre Lutero e Pastor Augusto (em clara referência a Santo Agostinho e Martinho Lutero). Embora outros personagens também manifestem sua religiosidade indo a cultos e ao templo católico, o tema do conflito religioso é capitaneado por Fiorina e Nina, que além de discordarem em relação às práticas de expressão de sua fé, se desentendem por outros motivos: quando jovem, Nina namorou com Giuseppe, o atual esposo de Fiorina, e por isso a católica fervorosa guarda ciúmes da evangélica, transformando a querela amorosa em religiosa.

Já quem assiste à novela provavelmente vai concordar: comparativamente, os evangélicos manifestam mais publicamente sua fé, são vistos orando emocionados, com mãos erguidas e olhos fechados; há várias cenas dos ensaios da equipe de louvor na igreja ou dos cultos frequentados por eles, que podem ser vistos convidando pessoas para comparecerem aos cultos – em tempo: a música “Grandioso és tu” é realmente bonita, mas já passou da hora de os irmãos renovarem o repertório. Do outro lado, há cenas dos católicos participando de missas, além de várias tomadas gerais em que se pode vê-los saindo, entrando, ou rezando ajoelhados no templo.

Para percebermos como a intolerância religiosa é tratada na novela, recorremos ao evento da possível retirada do sino da igreja católica: ao sair da igreja evangélica e ouvir bater o sino da igreja católica, Nina comenta com suas amigas o incômodo que sente ao ouvir aquele barulho, reclamação da qual elas compartilham. Fiorina fica sabendo e vai tirar satisfações com a inimiga. As crianças que estão na rua (Téo, Dóris, Mateus e Manuela) veem a briga e vão chamar Giuseppe (marido de Nina) para apartar; Dóris tenta intervir. Giuseppe e as crianças chegam, segurando Nina e Fiorina, que continuam a discutir. Elas são interrompidas pelo grito de Dóris, que ressalta que elas estão dando mau exemplo, e que o padre e o pastor ficariam desapontados. Téo sugere uma reunião com os habitantes do vilarejo para decidirem se o sino deve ser retirado, sugestão aceita por Nina e Fiorina. Em outra cena, Padre Lutero procura Pastor Augusto para contá-lo do ocorrido. Augusto confessa não saber do fato. Para ver essas cenas, assista ao vídeo abaixo:


Enquanto o padre se defende, a trilha sonora sugere tensão. Enquanto o pastor se desculpa, a linha melódica se altera e denota uma sensação positiva, seguida de efeito sonoro de um carrilhão; assim, a gradação sonora acompanha a narrativa e indica que, pelo menos entre os líderes religiosos, a tensão foi dissolvida. O enquadramento centraliza as mãos dadas entre pastor e padre, sugerindo um acordo. A visualidade do respeito às diferenças pode ser vista até mesmo nas mãos – uma branca e uma negra. Já na reunião do vilarejo as discussões continuam, e só cessam depois que Lutero e Augusto chegam, repreendem seus fiéis e defendem a convivência pacífica entre as duas religiões.

A centralização do conflito em um símbolo do catolicismo opera para a materialização da intolerância, facilitando sua compreensão principalmente se pensarmos no público infantil da trama; o sino soa então como uma metáfora para a luta simbólica que se trava entre católicos e evangélicos. A briga remete ainda a uma discordância clássica na intolerância em questão, já que são criticadas a veneração católica aos santos e a expressão pública da fé evangélica.

O tom cômico prevalece e é expresso pela atuação das rivais, que trocam insultos irônicos, mostram a língua uma para a outra e pelos fundos musicais e efeitos sonoros que sugerem humor. A tensão é pedagogicamente explicitada, como quando Nina e Fiorina ocupam lados opostos do quadro enquanto brigam ou quando católicos e evangélicos se dividem espacialmente na reunião do vilarejo. Alguns poderiam até reclamar do certo didatismo que há nas falas, mas devemos nos atentar para o público infantil da novela.

Interessante notar o apagamento dos desdobramentos reais que as atitudes de Nina e Fiorina poderiam acarretar; em nenhum momento é citado que o repúdio público ao sino e à religiosidade evangélica pode configurar uma ameaça ao direito de liberdade de crença assegurado pela Constituição Brasileira. Assim, o enquadramento da novela faz parecer que o conflito tem raízes mais pessoais do que religiosas.

Ao analisarmos essas cenas (e outras, mas que devido ao espaço não serão referenciadas aqui), percebemos que Cúmplices manifesta a relação entre duas religiões lidando no nível institucional (representado na figura do padre e do pastor) e no cotidiano, pelas personagens que integram os núcleos. Ao optar pelo viés humorístico, a novela associa a intolerância religiosa a uma história anterior entre as personagens, diluindo o conflito.

Ainda é cedo para tecer generalizações, já que a novela começou há pouco tempo, mas até agora, o conflito religioso tem sido remediado pelo padre ou pelo pastor. Ressalte-se que Fiorina é quem começa a briga, já que o conflito só é efetivamente deflagrado quando ela o incita, dado seu comportamento intempestivo – acentuado pela ascendência italiana.

As diferenças entre as duas religiões são expressas a partir da performance dos personagens e da cenografia. No caso dos evangélicos, a novela vale-se de estereótipos expressos pelo figurino (saias e cabelos grandes) e pela performance dos atores, que comportam-se mais pacificamente e externam mais sua fé e vinculação religiosa.

Por tudo isso, acreditamos que há um evidente favorecimento à representação evangélica: Pastor Augusto e seus fiéis são representados de modo mais favorável à tolerância do que os católicos; Manuela e sua família, centrais na novela, são evangélicos... Diferentemente do que foi visto em Revelação, dessa vez Íris parece não estar tão preocupada em converter os telespectadores, e além disso o núcleo religioso tem se mostrado uma interessante trama paralela: nos próximos capítulos, a afilhada do Padre se envolve com o Pastor, o que promete ser um bom conflito. Resta agora converter essa história em números de audiência, já que a novela ainda divide opiniões quanto ao seu resultado.
E você, o que acha? Comente abaixo! 

Creditos: Cúmplices Brasil

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